Sete anos

A tontura,
os estilhaços da garrafa no chão,
meu sangue manchando os lençóis da cama do meu irmão,
as pessoas na rua,
com seus problemas,
correndo de um lado para o outro,
e eu,
invisível,
o espelho se quebra,
o vaso se quebra,
agora tudo se parece com a minha alma,
o que eu me tornei,
se não aquilo que eu mais temia,
logo é meu aniversário,
e eu nem sei quem sou.

Anúncios

Porco

O silêncio sempre me incomodou,vinha por misturar meus sentimentos e vontades como um demônio que brinca na sua miniatura de um mundo imperfeito.
Bebi duas cervejas, passei por tornar isso uma rotina, cheguei em casa e bebi um gole da velha cachaça escondida no armário, queria estar bêbado, queria escutar música, mas acima de tudo, queria um amigo para conversar, um amigo de verdade, daqueles de infância, daqueles que tatuam na pele do tempo seus nomes inesquecíveis… Os amigos se foram, todos eles, os velhos, os novos, todos… Me custa conversar com alguém, conversar de verdade, minha visão do mundo agora parece perturbada e inaceitável demais para os outros, eu necessito de conversas, eu quero conversar, mas tudo tem sido mais discutir do que conversar, prefiro perder-me em minha própria mente do que interagir com os seres humanos, prefiro ser esquecido como uma manhã qualquer em uma aula de matemática… Música… Música não me conforta, parece gastar meus sentimentos, como se os mesmos fossem limitados a um refil de caneta, como se os gastasse ao ouvir uma melodia ou escrever algo, eu quero silêncio e solidão apenas, quero entrar nesse pequeno grande labirinto de indagações, quero perder-me até esquecer as perguntas que teria feito para ouvir as respostas que sempre estiveram dentro de mim…
No final das contas acho que estou pronto para a morte, no final das contas a diferença entre mim e um cadáver é o simples fato de meu corpo ainda estar ativo… E isso não me incomoda, nem um pouco, pois sou apenas um porco hipócrita, me alimentando de qualquer que seja a merda que me sirvam enquanto vivo, esperando pelo abate.

Silêncio por favor

É o que me irrita no final da noite,
a cerveja se foi,
a memória se foi,
os amigos se foram,
o amor se foi,
mas o álcool continua aqui,
de longe ela vem,
toca meu rosto,
a obra de arte que é o silêncio,
meu doce,
meu vinho,
minha tarde ensolarada,
o silencio,
o mendigo de pés encardidos,
que me aborda nas noites,
apenas pedindo um favor,
mantê-lo vivo,
sempre temos algumas moedas em nossos bolsos,
sempre temos poesia.

Um bar qualquer em São Carlos

Era uma noite úmida,
as luzes refletiam-se no asfalto,
quatro,
cinco,
seis cervejas,
sozinho,
caminhando sem destino,
passava por casas e casas,
vejo pessoas sentadas em bancos de plástico,
elas esperam por algo,
noite pós noite,
um gato passa ao meu lado,
crianças jogando jogos em seus quartos,
era uma primavera manchada,
pelos rastros de putas e mendigos nas ruas,
e a rua mesmo sem voz gritava por socorro,
implorava por um dia sem sujeira,
grande merda,
jogo injusto,
sem conversa.

Vejo um bar aberto,
rostos tristes,
bêbados,
entre eles,
doutores,
engenheiros,
vendedores,
vagabundos,
e um poeta,
o dinheiro escorrega de minhas mãos,
sete garrafas,
nenhum vinho barato,
apenas cerveja,
um homem chora pela sua mulher,
dois começam a discutir,
o balcão molhado pelas garrafas,
aquilo os entregava,
havia muito álcool naquela conversa,
meus olhos se fecham,
alguém me empurra,
um corte no braço,
isso nunca significou algo para um suicida,
e lá estava,
eu,
como as putas e os mendigos,
drogados e traficantes,
manchando as ruas com cerveja e sangue,
sangue e cerveja…
E o que é a vida,
se não um corpo fraco e embriagado  sangrando em uma sarjeta?
As cortinas se fecham…
Abrem espaço para um breve silêncio…
Aplausos.

Herói

Esse carinho vai matar,
essa afeição em imaginar,
o mundo que me faz sonhar,
o mundo que me faz girar,
o velho disco com canções,
que ainda me fazem chorar,
me diga quem vai me salvar,
pois nesse mundo sou herói,
me diga quem vai me acalmar,
já que a calma me destrói.

Sexo

Cabisbaixo,
a cidade me abraçava pelas costas,
onde estou?
O que estou fazendo?
Você é bonita,
quem é você?
Saia daqui,
quero ficar sozinho,
por que você está me beijando?
Eu não te quero,
nem mesmo sei o seu nome,
nem mesmo estou afim disso,
por que estou segurando sua cintura?
Por que estamos fazendo isso?
Como fui parar em sua casa?
Tire o álcool do meu corpo,
e qualquer sentimento que encontrar dentro dele,
devolva minhas roupas,
eu quero ir para casa,
deitar em minha cama e chorar,
por não ver sentido nisso e em tudo mais,
estamos na segunda,
nunca quis a primeira,
por que está fazendo isso comigo?
Nos conhecemos hoje,
eu nem sei qual é teu nome,
e isso não me importa,
pois ambos sabemos,
que nunca iremos nos ver de novo,
que nós realmente não queremos isso,
que estamos apenas saciando nossas necessidades,
porque estamos vazios,
e achamos que isso irá nos preencher,
e ambos sabemos que isso não é verdade,
porque esse vazio que temos só pode ser preenchido com amor,
e nós não temos isso,
e nunca teremos,
e pouco isso me importa,
eu só quero terminar isso logo,
ir para casa e escrever sobre meu fracasso,
meu falso sentimentalismo,
minha falsa perspectiva do mundo,
meu eu inexistente,
meu doce niilismo,
e eu nunca irei dizer que foi ruim,
pois nunca foi nada.

Vazio

“Segure minhas mãos,
é uma longa queda,
segure firme,
respire,
feche os olhos,
você entrará no vazio em três, dois , um…”

Boa noite ou dia,
boa tarde,
alegria,
ou tristeza,
ou folia,
quem diria,
quem diria…
Quem diria justo você iria entrar para essas terras,
um inútil acaba de chegar,
libertem as feras!
Não é bonito como achas ser assim tão diferente?
Maldito verme imprestável não é homem,
não é gente!
É um ser que se diz pensante,
com uma tão inexplorável mente,
e não me surpreende que por um instante,
achaste ser onisciente.
Veja nesse copo o que eu tenho,
sentimentos que revés desdenho,
e não segure o copo deixe a queda mostrar o que restou…
Veja os cacos de vidro,
como um coração partido,
é bem melhor perder algo,
que você nem sequer conquistou.
Lágrimas falsas caem,
daqueles que acham que sabem sentir,
um grão de areia no universo,
a emoção em cada verso,
é o que te impede de interpretar que não nascemos para existir…
Vazio,
está em seu corpo,
vazio,
sinta-se morto…
Nesse universo cheio,
dessas cores que anseio,
poder enxergar de novo enquanto tento não partir…