Evaporado

Eu não quero mais,
porque sempre quis muito mais,
mais do que posso ter.

Eu não quero mais,
porque cansei de querer tanto mais,
esse querer que não me satisfaz,
não é um jeito de viver.

Mas eu quero tanto,
este querer que tanto canto,
mas não há diabo nem santo,
para me ajudar a esquecer.

Eu não quero mais,
não eu não aguento mais,
não eu não suporto mais,
não eu já não sou capaz,
capaz de viver.

Vou deixar pra trás,
aquilo que não visto mais,
aquilo em que não insisto mais,
aquilo que me faz morrer.

Vou virar a dor,
o aconchego,
o calor,
a fúria,
o medo,
o pavor,
a beleza,
o horror,
a vossa alteza,
o teu doutor,
o protagonista,
e narrador,
dessa tristeza em mim,
desse imenso amor que vim,
lhe dizer que é o fim,
que não era para ser assim,
este tão belo terror.

Pelicanos não mentem

Pelicanos não mentem,
não serei eu,
nem mais ninguém,
o único que diz sem palavras,
é aquele que foi,
e não será algo,
até o fim do meu tempo,
que quando chega também se vai,
então espero,
até minha hora,
pois minha hora outrora fora,
o que foi no tempo limite de ser,
então morro para dar vida,
para seres menos que eu,
pela minha vã tentativa,
em ser algo mais que eles.

Mas quem sabe alguma coisa desse mundo?

Caminhava na noite escura pela cidade, a noite tingia as ruas com as mesmas cores desbotadas e cantava para mim com a mesma melodia de sempre, como qualquer noite solitária nas ruas de São Carlos.
Foi quando um dos postes se apagou, a vida e seus sinais… Então nessa penumbra que se formou em poucos minutos, perdido em minha linha de raciocínio paro de pensar e ouço passos, com os olhos sobre os ombros esguios vejo uma silhueta em contraste com a única luz restante da rua, veio até mim… Vi suas mãos tremulas no ímpeto de sacar o que seria uma arma de fogo qualquer, estava inseguro… Tirou-a  e a encostou em mim, disse com uma voz grave:
– Ai, cala a boca e me passa tudo, se não leva bala!
– Eu não tenho nada. –Disse em um tom surpreendentemente calmo.
– Para com essa porra cuzão! Passa logo o bagulho! –Em um tom mais alto, agora segurando com a outra mão minha blusa e encostando-me à parede. -Tá querendo morrer filho da puta?
“Que ironia ‘’ pensei. Eu realmente não carregava nada comigo além de um caderno de anotações e uma caneta… Foi quando eu enlouqueci:
– Atira então filho da puta! Vai logo! Acaba com isso!
– Tá achando que eu sou palhaço cuzão?!
– Cala a boca e atira! Você não é homem o suficiente pra me matar não? Tá esperando o que? Vai logo caralho!
– Não brinca comigo não seu merda!-Disse enquanto levantava a arma para coloca-la de encontro com a minha testa.- Pra meter pipoco é dois segundo maluco!
Enchi meu peito, fechei minhas mãos com a maior força que podia, força que nem mesmo eu tinha conhecimento da existência, olhei em seus olhos e gritei com toda a minha voz:
– Atira, Porra!
Sua expressão intimidadora fora embora, substituída por uma expressão de espanto, olhos arregalados, boca um pouco aberta, corpo trêmulo… Empurrou-me de volta para a parede com muita força, desapareceu na noite como um gato espantado.
A luz do poste se acende novamente, a frenesia, adrenalina, seja lá o que for, vibrava em minha cabeça, em meu corpo, em alguns minutos se foi, e a velha noite solitária de caminhadas nas ruas tomavam forma novamente. O que ele pensou? O que ele sentiu? Medo? Se identificou comigo de alguma maneira e teve piedade da minha pobre alma? Talvez.. Não sei bem para ser exato, mas quem sabe alguma coisa desse mundo? Quem sabe alguma coisa sobre si mesmo?
Voltei para minha casa, calmo, por mais incrível que pareça, passei por meus pais, cumprimentei-os, me dirigi até meu pequeno quarto, deitei-me em minha velha cama, adormeci.

A dança

Não dá mais,
não dá mais,
não aguento mais,
já não quero mais,
não conte aos meus pais,
eu não acredito.

Então nada aconteceu?
Isso me surpreendeu,
isso machucou,
doeu,
até mesmo Deus sofreu,
isso se ele ainda existe.

Estou dançando com os mortos hoje meu bem,
eu sempre fui só mais um,
eu nunca fui ninguém,
hoje eu me comunico,
comunico do além,
os mortos soltam sorrisos,
estou sorrindo também,
e você não fez nada porque lhe convém,
eu não acredito nisso.

É um local congelante aqui e nada vai me confortar,
no local onde estou não existem braços para abraçar,
e ninguém pode me alcançar,
sou parte da dança então vou dançar,
agora já não adianta chorar,
vou voar,
vou voar,
então ninguém vai me encontrar,
nunca mais me acariciar,
nunca mais me ouvir falar,
nunca mais me ouvir reclamar,
nunca mais me ver brincar,
e os mortos querem se balançar,
não dá mais,
eu não acredito.

‘’ Chore,
chore menino,
ninguém vai te escutar,
ninguém realmente te ama,
a vida já não é seu lugar,
chore,
chore menino,
você não é diferente de ninguém,
todos os outros meninos que conheceu,
foram iguais a você também,
chore,
chore menino,
você sabe que ninguém te ama,
pegue logo esta lamina,
e o faça em sua cama,
então chore,
chore menino,
ninguém vai te escutar,
a dança dos mortos é hoje menino,
então venha logo dançar,
chore,
chore menino,
todo mundo já entendeu,
você é só mais um no mundo,
um no mundo que morreu.’’

Não,
eu não sou ninguém,
muito menos alguém para alguém,
também,
é um fim trágico meu bem,
eu sei,
é o fim,
hoje eu danço com a morte,
escutem meu réquiem.

Catalepsia patológica

Acendam as luzes está muito escuro,
sinto um toque em meu rosto,
o toque que procuro,
na outrora fulgura silhueta que me faz aquecer enquanto perduro.

Um ultimo toque para mais um filho de Deus eu imploro,
do remanso leniente,
do teu corpo enquanto choro,
eu imploro,
eu imploro.