Tempestade

Verdes colinas,
um céu azulado,
é tão complicado,
eu sou tão complicado,

Leves toques no braço do violão,
um sorriso detectado,
é tão complicado,
eu sou tão complicado,

Por que você veio para estragar o meu dia?
Marca-lo com um chão molhado,
é tão complicado,
eu sou tão complicado,

Como fingir que isso não foi trágico?
No mínimo engraçado,
é tão engraçado,
tão complicado.

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Niilismo

Vida escrita em papel,
que seria uma história,
prefiro a mentira cruel,
de uma doce memória,
que logo iremos esquecer,

Cores misturadas nas telas,
vãs pinceladas tão belas,
e os sentimentos passados por elas,
que nunca iremos perceber,

Efêmeros momentos reversos,
inúteis poéticos versos,
infinito número de universos,
onde nunca existi…

Finito o ato de ser,
finito ato de compreender,
finita busca em entender,
o que realmente senti,
Ao estar aqui.

Voltas

Idas e voltas,
subidas e descidas,
montanha russa que és,
pulsante metáfora,
que adoece vez ou outra,
vontade inestimável,
de qualquer coisa que me faça existir,
um pouco mais,
um pouco menos.

Somos deuses de tempos perdidos,
amores sentidos,
conquistados,
roubados,
merecidos,
trucados.

É o às,
o seis,
o par de reis,
qualquer coisa entre um e outro,
pulsante metáfora,
paradoxo das mentiras,
frases jogadas ao vento.

Idas e voltas,
de longos caminhos,
vidas e mortes,
diferentes destinos,
eu volto hoje,
para morrer amanhã…
Eu vivo,
eu morro,
eu vivo de novo.

Setembro

A noite cobre a cidade mais uma vez… Com seus cobertores frios…Tecidos pelos ventos gélidos de uma noite monótona. Estou distante do meu destino, é um caminho de duas horas de duração até a faculdade, começo a me arrepender de ter saído de casa para uma caminhada…
Ouço meus pés acariciando a grama, assim como os carros dançando com o vento, tudo flui, tudo é vida… Posso sentir o mundo, ele acaricia meu corpo com suas mãos ásperas, eu sou um mundo utópico esperando a distopia.
Os mesmos passos desajeitados, as mesmas reflexões de sempre… É um belo dia tingido de cinza pelos pincéis sujos da minha mente. Eu quero uma noite inesquecível…
Eu olho para cima, lá está ele, meu passatempo predileto, era uma torre de energia, não emitia uma luz sequer… É isso…
Quando encosto meus dedos no metal frio da grande torre, sinto toda sua história, sinto as pessoas que estiveram ali, os sorrisos, as indagações embriagadas, as gargalhadas…Meu corpo levita, flui como um longo rio que vagarosamente abre passagem para a fraca água corrente que ali trafega, o universo permite que eu suba, assim o fiz.
Devo estar a doze metros do chão, é lindo aqui em cima, as luzes dos carros traçando os mesmos caminhos, tudo flui novamente, como uma sinfonia, tocada lentamente, sinto os teclados em harmonia com os violinos, a vida é realmente uma obra prima…É irônico pensar isso estando pendurado em uma barra de ferro sem nenhum equipamento de segurança, mas nunca estive tão seguro…Exercendo o papel em que mais atuei em toda minha vida, o papel de observador.
Após descer a imensa torre, continuo meu caminho…Estou atrasado para a aula, provavelmente chegarei com meia hora de atraso, minhas calças estão sujas… Um pequeno sorriso surge ao ver a sujeira na barra da calça que fora devidamente bem lavada e secada para o uso padrão de um adolescente…
O tempo passa, eu morro a cada segundo, eu vivo a cada segundo…O velho paradoxo temporal relativo…Algo me chama atenção, meu braço direito começa a formigar, como quando uma energia forte se aproxima, isso me incomoda as vezes…Eu olho para a direita, lá está, uma árvore branca como as nuvens que caminham pelo céu, meu corpo reage, é uma energia que nunca senti antes, tão forte, tão presente…Algo vai acontecer eu disse…
Eu subo a escadaria, passo pela roleta, vejo inúmeros rostos que logo esquecerei, vou para bem longe da minha sala, me sento no chão, no final de um dos longos corredores da universidade, escrevo:

O mundo muda mudo,
e mudo diz ao surdo,
tu que és sortudo,
por não escutar os gritos estridentes do silêncio.

Arvo

É estranho, escrever novamente, parece-me ineficaz, tudo tem sido visual para mim.

Perco-me,
em pensamentos,
em imagens,
pensar já não me parece ser a obra prima que costumava ser…
Arvo pede uma nota aguda,
em contraste com as mais graves notas,
sinto o arco do violino vibrando em minhas costas,
as cravelhas ficando mais flexíveis pela tensão das cordas,
mas sou incapaz,
incapaz com todas as palavras do mundo,
de expressar tal genialidade,
as palavras parecem me limitar,
já não são suficientes,
eu preciso que vejam,
aquilo que podem apenas ouvir.

O que acontece agora se não os lençóis brancos dançando com o vento em um jardim florido e ensolarado rodeado por colinas verdes?
Os prendedores no varal,
as nuvens estáticas… O que acontece agora?
Uma lágrima surge… Eu agradeço

Gira

É fim de noite
e meus sapatos estão sujos,
cansados de caminhar
nesses velhos sentimentos escusos…

Mas você…

Você guardou a lua em uma gaiola,
alimentou-a com girassóis e granola,
e a meia noite com sua aparência…
Me admira com olhos vis,
Assim como eu admiro o céu,
na carência de uma perfeita matiz,
com as mãos tingidas de cinza,
olho para cima e sinto…
Sou feliz…
Sou feliz.

Faculdade

Vamos lá, mais uma noite nesse lugar… Tem potencial… Assim espero…
A porta do carro se fecha, está frio…
Ouço os carros atrás de mim, as pessoas apressadas, não… Com certeza não… Elas nem sequer pensam no que estão fazendo, no motivo em si, eu não posso julga-las, com certeza não, nunca saberei meus motivos.
Havia essa calçada até a escadaria da faculdade, que por um momento, parecia-me mais longa do que o normal, está acontecendo mais uma vez…
Os passos, os sons emitidos pelas mais variadas solas de sapatos, tênis, sandálias e chinelos, cada um agindo de uma forma diferente, ao entrarem em atrito com o chão úmido, após essa longa segunda-feira chuvosa… Essas pessoas, esses sons, todos em tons diferentes, em ritmos diferentes, porém com o mesmo destino… E eu estava lá, fazia parte dessa orquestra, quem rege a mesma? Quem? Quem está desafinado?
Eu chego até o primeiro lance de escadas, agora os passos, sincronizados, sim, nós conseguimos, mesmo que indiretamente, mesmo que apenas por alguns segundos, havia música, sempre houve… Eu seria a única pessoa ali pensando nisso? Em como um simples caminhar poderia ser essencial para algo maior? Para descrever cada pessoa, cada história?
Essas pessoas, essa multidão… O que eu sou para elas? O que eu serei?
Apenas uma vírgula entre as frases? Apenas uma letra entre as palavras? Ou serei, a letra maiúscula, não só como o início, mas também serei o ponto final?
Dois passos a frente, as portas estão abertas, eu entro.